Texto publicado na revista Educação Infantil

Já dizia Goethe: “A cor é a música dos olhos”. Para explicar a sensação que a cor nos proporciona visualmente, ele se apropriou de outro sentimento que nos é mais facilmente compreensível. Todos gostamos de música. As crianças sentem a música desde antes do nascimento, ainda no ventre da mãe. Esta compreensão é tão intuitiva e latente, que é fácil ver uma criança gostando de uma canção antes mesmo de formar a fala necessária para cantá-la. Por isso o estímulo músical já na primeira idade é uma ferramenta tão poderosa.
O ensino de música no Brasil é visto como uma coisa à parte, muitas vezes hermético e privilégio de poucos. Enquanto na educação a música muitas vezes anda solitária, na vida real ela nunca está sozinha: é sempre acompanhada de danças, das cores dos figurinos e dos jogos de luzes, do apelo visual dos clipes e das artes das capas de cds. A música é usada em todos os momentos de nossas vidas: em nossas celebrações, nossas liturgias religiosas, nossos momentos privados… Ela está presente em todos os instantes de nossa existência, inclusive através do silêncio. Assim deve ser na educação infantil: a música pode ser ao mesmo tempo cenário e ferramenta para estimular atividades que desenvolvam outras aptidões.
Um diálogo muito interessante e proveitoso é o da música com outras vertentes artísticas, como o desenho, a pintura, a escultura e outras formas de manuseio da linguagem visual. Estas atividades manuais já são muito estimuladas na educação infantil, e é o momento em que a criança começa a se expressar e se afirmar como ser humano. Enquanto a hora do desenho, da pintura, do recorte e outras atividades, é encarada como um momento em que estimula-se a formação da identidade da criança, a hora da música é vista – muitas vezes – como simples recreação. Pensar desta forma é desperdiçar uma maravilhosa oportunidade de tornar suas atividades mais prazerosas através da música.
A maior dificuldade que vejo no uso da música no dia-a-dia da educação infantil é justamente o fato citado no começo deste texto: o aprendizado de música sempre foi algo para poucos. Só que todos nós, mesmo que não tenhamos experiência musical, trazemos a nossa própria bagagem sonora, nossos gostos e vivências através do ouvir. Reinterpretando Goethe, “a música é a cor do coração”, pois já trazemos uma ligação musical que se desenvolveu antes mesmo de nascermos. O que temos a fazer é perder o medo de lidar com a música e trazê-la para a frente da sala, mesclando-a com as outras atividades.
A melhor forma de pensar esta ligação das artes com a música é através de projetos. Buscar (ou produzir) canções que criem um elo entre as sequências de atividades que serão propostas aos alunos, ou mesmo que sejam uma atividade em si. No primeiro caso as canções serão uma espécie de liga, unindo os pontos do projeto e trazendo uma unidade sonora ao conteúdo visual. No segundo caso, elas podem tornar-se atividades divertidas dentro de tema proposto do projeto. E nessa hora devemos pensar a música em todas as suas cores: há uma variedade de estilos, autores, épocas. Música instrumental, música clássica. A própria música em si pode remeter a uma cor: uma música triste seria cinza, uma canção alegre um tom de vermelho vivo?
Por que não criar uma atividade de pintura ao som de “As quatro Estações”, de Vivaldi? Ou, ao finalizar um desenho, propor que a turma escolha uma música para simbolizar aquela obra? O contrário também é válido: ao terminar de apreciar uma canção, propor que os alunos traduzam em um desenho a sua interpretação do que acabaram de ouvir.
Quando digo produzir uma canção, é exatamente o que o texto sugere: por que não criar uma composição junto com as crianças, por mais simples que seja? Se não há a disponibilidade de instrumentos para a criação ou acompanhamento, pode-se fazê-los de materiais reciclados, como chocalhos de potes de iogurte, tambores de pet, claves de pedaços de madeira. Tudo isso devidamente decorado e pintado pelas próprias crianças.
O mais importante é terminar este texto com a noção de que a música pode – e deve – ter mais espaço na educação infantil. Porém, nunca sozinha. A criança já entende estas conexões entre os diversos conteúdos, estes hipertextos, pois eles são abundantes no mundo virtual. Qualquer aplicativo de celular faz isso: ao se clicar em um ícone, o mesmo emite um som e abre uma música, um vídeo, um desenho. Vamos fazer o mesmo na “vida real”, conectando os conteúdos e estabelecendo diálogos entre as diversas manifestações e expressões artísticas da própria criança.

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